terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A energia pré-paga e o estrangeiro


Já estava em Cartum, capital do Sudão, havia quinze dias quando resolvi deixar o hotel de duas estrelas que estava hospedado para me mudar para um apartamento alugado. Não que a hospedagem do hotel fosse tão ruim, mas a comida, de certo, não era compatível com meu estômago latino. Junto comigo, outro brasileiro que também se aventurava por aquelas bandas aceitou dividir as despesas do novo ap. A rua era de chão batido como na maioria da cidade, moringas de barro cheias de água eram protegidas do sol por uma cobertura de tela e ficavam à disposição de quem estivesse passando por ali com sede. Entramos no prédio, subimos as escadas, não havia elevador, então chegamos à residência. Um bom local com uma sala grande, dois quartos, uma ampla cozinha, ventiladores em todos os cômodos e, com aquecimento central, o chuveiro era muito melhor do que o do quarto de hotel. Já instalado na nova morada, eram quatro da madrugada e eu assistia TV. Passava um antigo filme norte americano, sem dublagem ou legendas, onde o ator Nicolas Cage devia ter uns vinte anos. De repente, um blecaute. Fiquei as escuras e na hora pensei que havia ocorrido um apagão, o mesmo que enfrentara no Brasil um mês antes de minha viagem a África ou, até mesmo uma ação militar ocorreria na cidade. Afinal, vivem sob ditadura e saíram de guerra civil há dois anos. Olhei pela janela investigando o ocorrido e, no mesmo instante percebi que era um fato isolado. Todos tinham luz, menos nossa escura habitação. Ok, paciência, deveria ser um problema passageiro. Fui dormir. Para meu desgosto, após três horas de sono, fui acordado pelo meu amigo de apartamento que ao despertar se deu conta da falta de energia. Dizia que ao tentar indagar a dona do imóvel sobre o ocorrido, ela, a proprietária, uma grega árabe aparentando ter uns cinquenta anos, com um inglês pobre, dizia repetidamente que precisávamos comprar energia. Isso mesmo, energia pré-paga. Num país pobre primeiro se paga, depois se usa. Compramos energia para nosso apartamento com a ajuda do filho da proprietária, problema resolvido, energia comprada, “toquei a vida”. Fiquei avaliando tal medida e cheguei até a achar viável para evitar calotes e “gatos”. Também passei a reparar que pela cidade, as grandes lojas, as mansões, os prédios públicos e grandes empresas tinham grandes geradores de energia e que por ali o problema era facilmente resolvido. Daí, percebi que quem “pagava o pato” nessas horas era a grande maioria desprovida de recursos financeiros. Já às vésperas de minha volta ao Brasil, à tarde, recebi no mesmo apartamento a visita um amigo brasileiro que mora em Cartum. Assistíamos a um VT exibido pela TV árabe, do jogo Botafogo X São Paulo, brasileirão 2009. Meu amigo, flamenguista, recordou rapidamente meu coração tricolor paulistano que naquele jogo o meu “imbatível” São Paulo havia sido derrotado nos minutos finais e deixava o brasileirão ir embora junto à conquista do quarto título consecutivo. Além disso, conversávamos outros assuntos enquanto fumávamos narguilé. Críticas ao governo local, família, internet, educação, saúde, higiene. Idéias diversas ocupavam nossas mentes quando de repente, de novo o blecaute. Os ventiladores pararam de soprar para amenizar o calor de trinta graus do inverno africano oriental, a televisão desligou, também a geladeira, o micro ondas e qualquer dependente de eletricidade que estivesse ali, daquele momento em diante, não tinha utilidade. O crédito acabou. Precisava comprar energia novamente, mas os proprietários não estavam em casa pra nos ajudar. Naquele instante estávamos sozinhos, eu e minha visita e, apenas placas em árabe indicavam o procedimento para compra de mais energia. Não precisei me desculpar com meu amigo, pois ele sabe que eu não estava habituado a comprar energia, no Brasil é diferente. Apesar de ter muitos caloteiros nossa energia não é pré-paga e os “gatos” existem. Saímos ao fim de tarde para jantar num dos poucos bons restaurantes da cidade, localizado na grande avenida que há em frente ao aeroporto de Cartum e deixei o problema para ser resolvido mais tarde. De volta à noite, no escuro, arrumando minha mala para a volta ao Brasil, com uma lanterna de cabeça, consegui a ajuda de uma amiga, sudanesa, que fala árabe e português perfeitamente. Energia pré-paga obtida, problema resolvido mais uma vez, pelo menos para mim que estava de partida.

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Foto: Rua no centro da capital Cartum. No país energia é pré-paga, quem não paga na hora fica às escuras.

Foto: André Lara


2 comentários:

Dionisio disse...

Pensando bem, não é o medo de calote que faz o governo Sudanes adotar a energia pré-paga. Acho que é racionalização de consumo. A energia por lá com certeza não é hídrica, deve ser termo-elétrica. Cara e rara. Aqui felizmente as represas transbordam e se o cidadão não paga, tudo bem. Abraço.

Sam Henzel disse...

Faz bastante sentido o que o colega Dionisio comentou. Aqui vai uma nota de um texto que li sobre o Sudão.
Infraestrura: Não há luz pública e a maioria das casas tem luz por meio de geradores a gasolina. Nã há sistema de esgoto, água tratada e nem coleta de lixo. Não existem ruas asfaltadas, praças, lojas, shoppings, cinema, etc, etc… nada mesmo…

Fonte:
http://thaisduartepadovani.wordpress.com/2009/08/05/noticias-do-sudao-pastores-marcelo-e-marlene/