quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Revendo os inimigos


    Eu tinha sete anos quando a ditadura no Brasil caiu, ou melhor, começou a cair. O que lembro é do cortejo do funeral do então presidente eleito Tancredo Neves. Com uma câmera fotográfica de brinquedo nas mãos, eu tirava fotos da televisão. É o máximo que me recordo. Com os estudos conheci os horrores da repressão militar e até hoje vou conhecendo os rastros fúnebres e malditos que deixou na história do Brasil e da América Latina. Rastros que continuam se estendendo nos regimes ditatoriais espalhados pelo mundo.
    Ontem o ditador da extinta ditadura argentina Jorge Videla, foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de 30 presos politicos. Que bom, menos um. A ditadura na Argentina (1976-1983) teve como resultado 30 mil pessoas mortas e desaparecidas. Outros 800 réus aguardam julgamento e 66 pessoas, entre militares e civis, já foram julgados por repressão contra o próprio povo durante a ditadura.
     Como em todos os regimes militares, assassinatos, estupros, sequestros de pessoas e bens, roubo de bebês, torturas e perseguições acontecem. O que os ditadores esqueceram ou talvez se fizeram ignorar era a chegada do futuro, onde seus alvos se tornariam o Estado. Dai meu caro leitor, prevalece uma velha máxima de que quem bate esquece e quem apanha quer vingança. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Erros na saúde pública


    Já gravei muito em hospital. Já testemunhei alas lotadas, gente no chão, idosos gemendo de dor sem remédio, crianças nas longas filas de atendimento, quando eram pra serem atendidas de imediato. O sistema de saúde pública do Brasil é fraco. Para se ter idéia, já vi médico ter de improvisar no meio da cirurgia por falta do aparelho correto. Falta até linha apropriada para sutura. Também, já vi bebê entrar para cirurgia e depois do ato, o médico dizer aos pais que o diagnóstico dado antes não era correto e que outro procedimento será feito com a criança, que indefesa, fica sob a proteção de pais, normalmente vitimas da indução a ignorância deste Estado. Na certeza de que é impossível contestar a autoridade médica, acatam as ordens dos profissionais da saúde e só sabem rezar e pedir a deus ou aos deuses que amparem o filho deles de uma desgraça, como uma injeção errada de vaselina liquida na veia.  
    A morte da menina Stephanie, de 12 anos, assassinada por uma auxiliar de enfermagem que não se deu o trabalho de fazer a própria obrigação e ver o que iria injetar na criança, não deve ser visto como caso isolado de erro médico. Há pessoas que têm a perna amputada erroneamente. Cirurgias feitas que nunca deveriam ter acontecido.
    A única verdade é que pessoas pagam planos de saúde, que nem sempre são honestos com seus contratantes, afim de se verem livres da incompetência do atendimento público de saúde. Certa vez tive a oportunidade de entrevistar o doutor Carlos Barradas, então Secretário de Saúde de São Paulo. Durante a entrevista o doutor Barradas apresentou as grandes premissas da ação do Estado na área da saúde. Deixei a última pergunta como um coringa guardado na manga, e questionei o então secretário de saúde do Estado, se ele e a família dele eram atendidos pelo SUS ou se tinham convênio medico. A resposta é óbvia.
    Sistema de saúde de qualidade no Brasil é só pra quem tem dinheiro, e muito, pois não é barato. E os pobres que aguardem nas filas, e cuidado com a vaselina, com as amputações erradas, etc...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sudão há um ano


     Tento sintetizar neste artigo as experiências que vivi, em dezembro de 2009, quando viajei ao Sudão, na África. Lá produzi uma série de reportagens chamada “Sob o Sol do Sudão”, exibida em janeiro de 2010, pelo SBT. Conheci a capital Cartum e uma das regiões mais violentas e miseráveis do mundo, Darfur, no oeste do país. Darfur lembra o velho oeste, dos filmes americanos. É o lugar perfeito para antigas disputas entre cowboys armados. A comparação se deve à condição ruim que se encontra Darfur. Rica em petróleo, a região viveu 40 anos de uma guerra civil que,  há seis anos,  está “paralisada”. Como resultado da guerra, mais de 2 milhões de pessoas fugiram. Trezentas mil pessoas morreram, segundo as Nações Unidas. Região saariana, onde chuva é coisa rara, a tristeza da guerra juntou-se ao desespero da luta pela vida.  Homens, mulheres, crianças, idosos, definhavam de sede e fome em frente às câmeras da mídia mundial. Hoje a situação é melhor? Talvez, mas não torna as condições de vida dos habitantes menos tensa e castigada. O Sudão sofre embargo econômico dos Estados Unidos e países aliados. O presidente, Omar Al Bashir, há 40 anos no poder, e recentemente “reeleito” mais uma vez, é acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Internacional de Haya.
     Na disputa entre os poderosos quem sofre é o povo. Faltam água, comida, remédios, escolas, hospitais, saneamento. O lugar é paupérrimo. Além disso vive sob uma ditadura militar islâmica. Oposição política existe, mas é abafada. Liberdade de expressão é algo perigoso de se praticar.

A capital
     Cartum, é uma cidade interessante e bonita. Lá, se encontram o Rio Nilo azul com o Nilo Branco, formando o Rio Nilo, que desagua no mar Mediterrâneo, ao Norte do Egito. Águas que, segundo a Bíblia, carregaram o bebê e profeta judeu Moisés para os braços da mulher do Faraó, dando origem à história mitológica do povo judeu. Também foi inspiração para o filme que leva o nome da capital, “Cartum”, filmado em 1966. A casa do general inglês Gordon (em deterioração) e a do revolucionário muçulmano Mahdi (bem conservada) estão abertas à visitação.
     Os habitantes locais tomam a água turva que vem do Nilo. Pouquíssimos têm dinheiro para comprar água engarrafada. A energia elétrica é pré paga e quem não pagar fica à luz de velas rapidinho.

As pirâmides dos Núbios
     Ao Norte de Cartum, seguindo pela estrada construída com investimentos do homem mais procurado do mundo, o saudita Osama Bin Laden, que morou no Sudão na década de noventa, chega-se as ruínas das pirâmides daqueles que são chamados de “os faraós negros”. Cerca de vinte pirâmides do império Núbio estão se decompondo aos poucos. As que receberam restauração ficaram muito diferentes das originais. Todas agora parecem abandonadas e em deterioração.

Visão geral
     Nas ruas há peculiaridades culturais muito interessantes, como as pinturas de henna que as mulheres casadas usam, as lutas livres em bairros cristãos, disputadas em arenas rudimentares. Por todo canto, há bares para fumar narguilé, típico cachimbo árabe, pois a proibição do alcool só deixa essa opção como diversão noturna aos habitantes. Mulheres vestidas de burca, veste islâmica que cobre todo o corpo e só deixa os olhos de fora, são  vistas andando para todos os lados, algumas com  as mãos cobertas com luvas. Mercados tradicionais de rua, onde se vendem carne e peixe ao ar livre e sem refrigeração. Vendem também marfim e cabelo de elefante.
     O Sudão enfrenta há tempo um processo de separação da parte Sul, que não consegui visitar. No sul,  a lei islâmica não é  obedecida por causa da resistência sócio-cultural dos povos da região.  Oficialmente, a questão vai ser decidida em plebiscito marcado para o primeiro semestre de 2011.  Ainda é uma incógnita se tudo ocorrerá em paz. Espero que tudo ocorra da melhor forma possível e o povo sudanês, carinhoso e receptivo, avance em direção a um futuro melhor.

Foto: Guia turístico dentro de uma das pirâmides do Sudão
Fotógrafo: André Lara


      

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

TVA - A crítica

Uma impressionante incompetência me assustou esses dias atrás. Estou mudando de casa e no meio de todo o trabalho para estar no novo lar, a TVA me ajudou a ficar mais cansado. Tenho o serviço de internet, faz dois anos, então, resolvi colocar a TV por assinatura. Minha vontade era dar a minha família a oportunidade de entretenimento pela televisão. Apesar de não perder muito tempo na frente da "telinha", minhas crianças querem ver desenhos, minha mulher assiste os programas que ela gosta. Entretenimento! Só isso eu queria oferecer, ou melhor, comprar à família amada. Liguei, negociei e comprei o produto. Os telefonistas da TVA, muito educados realizaram uma negociação justa para a TVA e eu fecharmos negócio. Vieram instalar os aparelhos em casa. Então começou o errado. Combinaram três pontos e só trouxeram dois. Não estava disponível no momento. Mas era só ligar e solicitar a instalação, que estaria na mão (5 dias úteis). Ok! Fazer o quê? Ficaram então dois pontos conectados mas, um deles, o da TV HD falhou. O sinal não chegava. Nisso eu já havia ligado e re-ligado ao SAC da TVA. Solicitei o técnico, viria entre 19 e 22 horas. "Alguém tem que esperar na residência". Disse a telefonista. Esperei, ninguém chegava. Quinze pras dez. Ligo no SAC da TVA. "O técnico está próximo a residência senhor. É só aguardar". As 22 horas e cinco minutos, ligo novamente. O telefonista diz: "Foi remarcada para amanhã". Desacreditei, eles simplesmente não conseguiram fazer o básico. Venderam TV a cabo, mas não conseguiram instalar o combinado. Aquela irritação de ligar, às vezes cair a linha, tem que ouvir a secretária eletrônica de novo. Um sufoco total. Me irritei, desiludi e cancelei a compra. Obrigado TVA pelo menos a me ajudou a economizar dinheiro, até eu fechar contrato com o concorrente. 

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cúpula Presidencial ao Empreendedorismo - Presidential Summit on Entrepreneurship


No dia 27 de abril de 2010 eu desembarquei nos Estados Unidos da América, mais precisamente em Washington D.C.. Havia 20 anos que eu não entrava no território do tio Sam. Fui a convite do Consulado daquele país, em São Paulo para participar da Cúpula Presidencial ao Empreendedorismo, promovida pelo governo Obama. A cúpula reuniu empreendedores de todo o mundo, na maioria muçulmanos. O intuito do governo Obama é estreitar as relações com os muçulmanos de todo o mundo. Lá havia muçulmanos do Oriente Médio, Ásia, Europa, África e América Latina. Empresários e novos empreendedores puderam palestrar contando suas experiências e vitórias. Novas idéias de jovens empreendedores muçulmanos vieram à tona mostrando a capacidade que os novos muçulmanos têm de realizar negócios e projetos que se enquadram dentro do caráter progressista que o mundo necessita para que se encontre a paz e a verdadeira e necessária democracia. O slogan da cúpula foi "Um novo começo" em referência ao depoimento de Obama na Universidade do Cairo, no Egito. Sou bem cético em relação ao progresso nas relações entre árabes muçulmanos e americanos, tendo em vista as diversas ações militares que o tio Sam tem promovido nos países islâmicos, além do apoio ao terrorismo de Estado israelense, chamado de segurança nacional. O muro que está sendo erguido para separar israelenses e palestinos exilados já está ganhando apelido de "O novo muro de Berlim". Esse tipo de coisa é retrocesso. Espanta partir de Israel uma atitude dessas, tendo em vista todo o progresso que alcançaram. A Presidential Summit on Entrepreneurship é um passo dado numa imensa estrada a percorrer. Toda caminhada, longa ou curta, começa com o primeiro passo, vamos ver se os andantes não se cansam antes de chegarem aos seus objetivos. Torço por isso e sei que o mundo também anseia por uma solução aos sofrimentos humanos. Enfim, a cúpula foi uma boa atitude dos americanos e, toda ação dos Estados Unidos, que concerte parte do imenso estrago causado pela gestão passada, nas relações com o mundo islâmico, é bem quista e contradiz as palavras de certos intelectuais que hoje bem dizem guerras.


Foto: Farah Pandit (Representante Especial das Comunidades Islâmicas, no governo Obama) discursa no segundo dia da Cúpula Presidencial.

Foto: André Lara

quarta-feira, 3 de março de 2010

Minha visita ao Porta-Aviões USS Carl Vinson


Dia 28 de fevereiro participei de uma recepção no Porta-Aviões USS Carl Vinson, da Marinha Americana, oferecida pelo governo dos Estados Unidos da América. O evento aconteceu no Rio de Janeiro, onde teve início no Píer Mauá. Ao chegar no píer fui recepcionado por militares americanos que me indicaram onde devia pegar uma das vans que levaram a mim e a outros convidados até o local onde embarcamos, numa balsa, a caminho do Vinson, como é carinhosamente chamado por sua tripulação. Ao embarcar subi as escadas características do navio e já me sentia numa superprodução de Hollywood. Dois helicópteros estavam estacionados na entrada do salão onde ocorreu o evento. No Teto bandeiras de muitas nações penduradas e, no centro, em cima do palco, as bandeiras dos Estados Unidos e do Brasil, as maiores de todas. Mostravam que o evento era uma troca de diplomacia entre os dois países. Ainda, dentro do salão, estacionado de canto estava o caça F-18, da fabricante Boeing, avião o qual o tio Sam está oferecendo ao governo brasileiro. Além da recepção foi oferecido um passeio pelo convés do USS Carl Vinson. Isso mesmo, eu andei entre os cinco helicópteros e 22 aviões, entre eles 12 caças F-18. Além disso, conversando com o Contra-Almirante Ted N. Branch, soube que, no Haiti, a tripulação do Vinson efetuou grandes missões humanitárias. Foram mais de 2.200 missões e graças a elas foram entregues quase 167 toneladas de alimentos, 337 mil litros de água e mais de 17,5 mil quilos em suprimentos médicos. Realmente me impressionou esses dados, pois quando se fala numa máquina de guerra não se imagina que ela exista, também, para salvar vidas. O Porta-Aviões tem 74 metros de altura, mede 333 metros de comprimento, 78 metros de largura, tem capacidade para transportar 60 aviões e 15 helicópteros, além de uma tripulação de 6.250 membros. A tripulação gigantesca é riquíssima em miscigenação étnica. Apesar de todos serem americanos, há a bordo tripulantes homens e mulheres, com ascendência árabe, árabe islâmica, latina, negra, judaica, entre outras. Uma prova de que todos podem trabalhar juntos independentes de credos, raças e cores. Ao fim me despedi do impressionante USS Carl Vinson, que seguiria viagem para o Chile, buscando realizar com sua tripulação mais trabalhos humanitários em socorro às vítimas do terremoto.

Foto: Salão onde foi realizado o evento a bordo do USS Carl Vinson
Foto: André Lara

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A energia pré-paga e o estrangeiro


Já estava em Cartum, capital do Sudão, havia quinze dias quando resolvi deixar o hotel de duas estrelas que estava hospedado para me mudar para um apartamento alugado. Não que a hospedagem do hotel fosse tão ruim, mas a comida, de certo, não era compatível com meu estômago latino. Junto comigo, outro brasileiro que também se aventurava por aquelas bandas aceitou dividir as despesas do novo ap. A rua era de chão batido como na maioria da cidade, moringas de barro cheias de água eram protegidas do sol por uma cobertura de tela e ficavam à disposição de quem estivesse passando por ali com sede. Entramos no prédio, subimos as escadas, não havia elevador, então chegamos à residência. Um bom local com uma sala grande, dois quartos, uma ampla cozinha, ventiladores em todos os cômodos e, com aquecimento central, o chuveiro era muito melhor do que o do quarto de hotel. Já instalado na nova morada, eram quatro da madrugada e eu assistia TV. Passava um antigo filme norte americano, sem dublagem ou legendas, onde o ator Nicolas Cage devia ter uns vinte anos. De repente, um blecaute. Fiquei as escuras e na hora pensei que havia ocorrido um apagão, o mesmo que enfrentara no Brasil um mês antes de minha viagem a África ou, até mesmo uma ação militar ocorreria na cidade. Afinal, vivem sob ditadura e saíram de guerra civil há dois anos. Olhei pela janela investigando o ocorrido e, no mesmo instante percebi que era um fato isolado. Todos tinham luz, menos nossa escura habitação. Ok, paciência, deveria ser um problema passageiro. Fui dormir. Para meu desgosto, após três horas de sono, fui acordado pelo meu amigo de apartamento que ao despertar se deu conta da falta de energia. Dizia que ao tentar indagar a dona do imóvel sobre o ocorrido, ela, a proprietária, uma grega árabe aparentando ter uns cinquenta anos, com um inglês pobre, dizia repetidamente que precisávamos comprar energia. Isso mesmo, energia pré-paga. Num país pobre primeiro se paga, depois se usa. Compramos energia para nosso apartamento com a ajuda do filho da proprietária, problema resolvido, energia comprada, “toquei a vida”. Fiquei avaliando tal medida e cheguei até a achar viável para evitar calotes e “gatos”. Também passei a reparar que pela cidade, as grandes lojas, as mansões, os prédios públicos e grandes empresas tinham grandes geradores de energia e que por ali o problema era facilmente resolvido. Daí, percebi que quem “pagava o pato” nessas horas era a grande maioria desprovida de recursos financeiros. Já às vésperas de minha volta ao Brasil, à tarde, recebi no mesmo apartamento a visita um amigo brasileiro que mora em Cartum. Assistíamos a um VT exibido pela TV árabe, do jogo Botafogo X São Paulo, brasileirão 2009. Meu amigo, flamenguista, recordou rapidamente meu coração tricolor paulistano que naquele jogo o meu “imbatível” São Paulo havia sido derrotado nos minutos finais e deixava o brasileirão ir embora junto à conquista do quarto título consecutivo. Além disso, conversávamos outros assuntos enquanto fumávamos narguilé. Críticas ao governo local, família, internet, educação, saúde, higiene. Idéias diversas ocupavam nossas mentes quando de repente, de novo o blecaute. Os ventiladores pararam de soprar para amenizar o calor de trinta graus do inverno africano oriental, a televisão desligou, também a geladeira, o micro ondas e qualquer dependente de eletricidade que estivesse ali, daquele momento em diante, não tinha utilidade. O crédito acabou. Precisava comprar energia novamente, mas os proprietários não estavam em casa pra nos ajudar. Naquele instante estávamos sozinhos, eu e minha visita e, apenas placas em árabe indicavam o procedimento para compra de mais energia. Não precisei me desculpar com meu amigo, pois ele sabe que eu não estava habituado a comprar energia, no Brasil é diferente. Apesar de ter muitos caloteiros nossa energia não é pré-paga e os “gatos” existem. Saímos ao fim de tarde para jantar num dos poucos bons restaurantes da cidade, localizado na grande avenida que há em frente ao aeroporto de Cartum e deixei o problema para ser resolvido mais tarde. De volta à noite, no escuro, arrumando minha mala para a volta ao Brasil, com uma lanterna de cabeça, consegui a ajuda de uma amiga, sudanesa, que fala árabe e português perfeitamente. Energia pré-paga obtida, problema resolvido mais uma vez, pelo menos para mim que estava de partida.

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Foto: Rua no centro da capital Cartum. No país energia é pré-paga, quem não paga na hora fica às escuras.

Foto: André Lara


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Refugiados de guerra


Por André Lara


O que fazer quando seu país está envolvido em algum conflito, seja político, religioso ou étnico e, você passa a ser perseguido por declarados inimigos? Em muitos lugares do mundo as guerras transformam a vida de muita gente, deixando a elas a fuga como única opção. Essa fuga não é para um lugar próximo e sim um local desconhecido, onde o fugitivo não conhece nada, nem ninguém e na maioria das vezes, conta apenas com a própria sorte.


As pessoas que fogem de seus países de origem por motivos de temores de perseguição por causa de raça, religião, nacionalidade, grupo social, formação ou opinião política e são acolhidas em outras terras, recebem o status de refugiados. São recebidos pelas nações e sobre eles é feito um trabalho de adaptação aos costumes locais.


Quando um refugiado chega ao Brasil ele pode pedir status de refugiado ao governo. Após isso, um trabalho de investigação é realizado para ter a certeza de que o pedido é válido. O Comitê Nacional para Refugiados (CONARE) é responsável por essas pesquisas e tem como integrantes o Itamaraty, o Ministério do Trabalho, Ministério da Justiça, Ministério da Saúde, Ministério da Educação, a Polícia Federal, uma instituição católica e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). “As pessoas que recebemos é que nos procuram. Muitas vêm escondidas em navios ou entram como turistas e depois pedem refugio. Atendemos aqui 78 nacionalidades,” Nos conta Sezira Furquim, coordenadora do Centro de Acolhida para Refugiados, da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo.


O primeiro passo para ajudar os refugiados, é lhes dar cidadania, pois muitos chegam sem nenhum documento ou, com documentos falsos. Após esse processo podem andar livremente pelo território nacional, trabalhar e usufruir de todos os serviços públicos que o país oferece. Depois é realizado um trabalho de integração social. “No começo foi muito difícil. Muitas vezes chorava achando que foi pior sair do meu país, mas graças a Deus as coisas se acertaram.” Declara Ahmed Hussein, palestino refugiado no Brasil há dois anos. Ahmed veio por causas das tensões entre o povo palestino e o Estado de Israel.


“Tinha medo de ver toda a minha família morta. Perdi meus pais, dois irmãos, não quero perder meus filhos, então a única maneira foi fugir.” Trazidos pelo governo brasileiro devido a um acordo entre o Brasil e a ACNUR, a família de Ahmed é uma entre centenas de outras famílias que fugiram de seu país por causa do drama da guerra. Casos semelhantes ocorrem com pessoas de outras nacionalidades, principalmente de países do continente africano, onde conflitos locais entre tribos e facções contribuem para o aumento de refugiados africanos no mundo.


Mohammad que pediu para não ter nome completo revelado por medo de represálias é da Somália. País que passa recentemente por conflitos internos. Ele veio sozinho para o Brasil a bordo de um navio cargueiro, escondido dentro de um container. “Foram dias sem comer. Não podia pedir ajuda pra ninguém, tinha medo que me jogassem pra fora da embarcação. Então, quando anoitecia, ia como um rato e roubava pão e água da tribulação, sempre sem ser visto. Não escolhi vir pra cá, apenas entrei no primeiro navio que consegui.” Mohammad é muçulmano, fala francês, inglês, árabe e a língua somali que diferencia conforme uma das 18 regiões que compõe o país, que tem seu território disputado por vários caudilhos.


Antes de se refugiar, trabalhava como advogado de um senhor de guerra. Depois que sua facção perdeu poder e passou a ser perseguida, só restou ao advogado fugir, sem lenço, nem documento, para poder continuar vivo. Hoje, vive com outros refugiados, dividindo as despesas de uma casa. “Mesmo não tendo a vida que eu tinha lá, como advogado, aqui sou mais feliz, pois sei que não verei guerra e violência tão cedo, se Deus quiser.”


O drama atinge milhares de pessoas no Brasil. Cerca de quatro mil refugiados vivem no país recentemente. E ainda, existem milhares que estão morando aqui em colônias e ilegais por não procurarem o governo brasileiro, às vezes com medo de ser encontrado e ter a paz roubada mais uma vez.


Enfim, o Brasil continua até hoje recebendo refugiados das guerras, se tornando cada vez mais um grande berço da miscigenação.

Foto: Crianças no campo de refugiados em Nyala, capital de Darfur. Setenta mil deslocados internos vivem nesse campo. Alimentos recebidos por ajudas humanitárias atingem apenas 70% dos necessitados.

Foto: André Lara





sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Explicando o Ramadan

O Ramadan é o mês sagrado do mundo islâmico. Durante esse mês muitas ações são cobradas dos fiéis, buscando o crescimento espiritual, mental e físico. Neste mês é que o Corão sagrado foi revelado para o profeta Maomé. Durante o Ramadan, que é o nono mês do calendário islâmico, os muçulmanos praticam jejum durante a luz do dia, concentram-se com mais esforço na adoração a Deus, se abdicam de pensamentos ruins, de fumar, de manter relações sexuais, da hora que o sol nasce até o pôr do sol. O jejum dura todo o mês e é um momento de grande concentração no caminho do Islam. Todo o dia é feita uma oração que precede a quebra do jejum. A refeição diária que quebra o jejum é chamada “Iftar”. Após ela é comum que os muçulmanos saiam para visitar familiares e amigos. O jejum é retomado no dia seguinte ao alvorecer. Durante as noites do mês do Ramadan os crentes podem comer e manter relações sexuais, até que apareça a linha de luz que separa a noite do dia. Se o crente praticante do jejum contar uma mentira, acusar alguém pelas costas, prestar falso testemunho, for ganancioso ou cobiçar, o jejum estará quebrado. Também durante o Ramadan os muçulmanos se aplicam mais nas orações e na leitura do Corão sagrado e, além das cinco orações diárias, os crentes praticam a oração de “Taraweeh” ou “oração noturna” que dura três vezes mais que as orações comuns. No 27º dia de jejum é comemorada a laylat-al-qadr ou a noite do poder, dia em que o profeta Maomé recebeu a primeira revelação de Deus e, segundo a tradição islâmica, nessa noite Deus determina o curso do mundo para o ano seguinte. Ao término do mês de Ramadan um feriado chamado “id-al-fitr” ou “o banquete do término do jejum” é comemorado tendo duração de três dias. Festas são realizadas, presentes são trocados, amigos e familiares fazem banquetes e rezam em congregação.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Uma das faces do terrorismo

A BBC Brasil divulgou uma notícia surpreendente. Um banco católico alemão, o Pax Bank, está investindo em ações de empresas fabricantes de anticoncepcionais, cigarros e armas. Não acho tão grave o primeiro investimento, apesar de ir contra a pregação da igreja católica. Afinal, o mundo precisa de anticoncepcionais e quem dera todos tivessem acesso. Mas os outros dois investimentos, armas e cigarro são o fim da picada. A soma dos investimentos chega a mais de 4, 200 milhões de reais. No caso mais grave, que foram os investimentos nas ações da empresa britânica de armamentos BAE System, a quantia chega a 2,3 milhões de reais. A imprensa alemã descobriu os investimentos diabólicos do banco católico e denunciou. Logo, o Pax Bank se manifestou dizendo que não sabia que tais fatos ocorriam. Pediu desculpas e se comprometeu a corrigir tais deslizes. Na verdade toda essa demagogia do Pax Bank é para “inglês ver”. Não é um erro, não é um deslize, tão pouco um acidente esses investimentos. A verdade é que estamos numa Terra onde a preocupação é garantir a própria existência, nem que para isso, precise-se investir em cigarros e armas, duas coisas altamente letais à saúde humana. Investimentos nos cigarros incentivam as doenças causadas pelo tabagismo, que matam milhões de pessoas ao ano em todo o mundo. E os investimentos em armas então? A Bae System é uma empresa britânica armamentista que fornece armas para o exército britânico, americano e outros aliados. Os mesmos que combatem em terras islâmicas. Enfim, vamos parar com a demagogia, pois, não há erro, não há vontade de paz, não há messias a caminho, nem tão pouco está próximo o fim do mundo com o soar das trombetas dos anjos. O que há são interesses e, o que os investimentos diabólicos do católico Pax Bank mostram, é apenas mais uma das faces do terrorismo.